Minhas impressões sobre a viagem de Santiago de Compostela, de Bike.


Percorrer o Caminho de Santiago de Compostela, sem dúvida, uma experiência eletrizante. Começo a pesquisar, ler bibliografias da rota, ouvir depoimentos de pessoas que lá estiveram, tudo me fascina e  parece mover-me para que um dia eu também me torne uma peregrina de verdade.

Seis meses de preparação física, fugindo para as montanhas nos finais de semana que eram possíveis, aos poucos, me familiarizo com minha capacidade e domínio em relação a bicicleta.

Um curso rápido de mecânica para lidar com prováveis imprevistos e com grande expectativa, o dia tão esperado da partida finalmente acontece.

Sigo rumo a rota de peregrinação que cruza a Espanha, tão importante nos tempos medievais onde a fé era, sem dúvida, um valor de incontestável riqueza.

Chego a Espanha e vou direto ao ponto inicial escolhido para meu caminho Saint Jean Pied de Port, na França. As montanhas me invocam um sentimento dúbio, me fascinam e me assustam, tamanha a exuberância e imponência.

Os dias de pedal seguem-se conforme o planejado, percorrendo trajetos repletos de campos, cerrados, bosques, montanhas e vales; terrenos com muita terra e pedras de todos os tamanhos, mas também, de chãos de estradas tão lisinhas que, de cima de minha bicicleta, eu podia me sentir deslizando sobre o céu…

Os caminhos sempre desembocavam nas belas cidadezinhas ao longo de todo o trajeto.

Cruzar com pessoas de todos cantos do mundo, cada qual carregando sua especial razão de estar ali, seja ela espiritual, religiosa, esportiva ou apenas prendendo-se em algum tempo, para alinhar os pensamentos.

Tudo era bem especial e fascinante, principalmente fazer parte daquele seleto e valente time.

Os pedais das primeiras horas da manhã tinham um sabor especial e da mesma forma, estar junto da longa marcha de pessoas a pé ou de bicicleta, trazia-me um sentimento de que todos faziam parte de uma grande família, a família dos peregrinos.

O bem estar proporcionado pelos movimentos do corpo, o peito leve e aberto, o sopro de liberdade iluminado pelos dias de sol, um conjunto de sensações tão intensas estavam sendo sacramentadas na minha essência para sempre.

Nas reflexões diárias, entendi e descartei tudo o que era supérfluo, não só nas coisas materiais, principalmente em relação as minhas idéias e valores de vida.

Nos dias, encontrando a mim mesma, percebi que a busca da felicidade na verdade é uma mera ilusão.

Razão e espírito, corpo e alma estando integrados, não se faz necessária essa busca frenética pelo sentir-se bem e estar feliz.

Quando estamos completos e nos sentindo em paz, esse estado positivo simplesmente já se encontra lá. Daí, a alegria estar independente do mundo externo e no seu estado presente, preenche todo nosso interior, pelo simples fato se ser e existir.

Seguindo então a rota original dos peregrinos, as cidades eram deixadas para trás com imensa alegria e tudo parecia não passar de uma grande brincadeira: seguir as setas amarelas, chegar nas cidades, encontrar um abrigo para pernoitar, uma deliciosa rotina solitária que se repetiu por quinze dias, quando então, atingi a cidade de Santiago de Compostela.

Naquela altura, o então chegar, já não era o mais importante e também significava o fim daquele jeito de viver encantador, sem a preocupação massante do tempo com o relógio, sentindo-me realizada simplesmente na entrega com a natureza escancarada que por lá, a cada instante, irrigava meus olhos com sua intensa beleza.

Quando há realmente aquela sede em se atingir um objetivo, os obstáculos parecem muito pequenos.

O cansaço e a dor são superadas, a vontade grita mais alto e os tão distantes 800 km, estão logo ali.

No mais, chego a seguinte conclusão: os reais problemas não residem nas montanhas, mas sim, na cabeça de cada um de nós.

Então, para quem pretende um dia ter essa saborosa vivência, hoje, resta-me apenas desejar um já saudoso, Buen Camino !!

 
Melissa Camargo Ambrósio Dias